Terapia de Casal com Base Cognitivo-Comportamental e Análise do Comportamento
As crises em casamentos são o terror dos casais. Viver a dois é um dos maiores desafios da vida adulta. Amor, por si só, não garante um relacionamento saudável: é preciso aprender habilidades de comunicação, negociação, manejo de conflitos e cuidado mútuo. A terapia de casal, especialmente quando baseada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e na Análise do Comportamento (AC), oferece exatamente esse tipo de preparação e reflexão orientada. Mais do que “salvar relacionamentos em crise”, a terapia de casal ajuda a construir um vínculo mais seguro, respeitoso, honesto e satisfatório para ambos.
Crises em Casamentos – Apaziguadas, Não Resolvidas
Dificilmente uma crise comum resulta em divórcio. O padrão é que sejam crises e mais crises que levam ao fim. Cada uma delas sem uma resolução, apenas um “apaziguamento” típico de quem convive… A crença popular de que casamentos terminam por causa de uma traição ou um evento isolado é, na maioria das vezes, uma fantasia.
O fim de uma união raramente é um salto no abismo; é, antes, uma longa e cansativa caminhada por escadas desgastadas. O divórcio costuma ser o desfecho de um acúmulo de crises não resolvidas, em que o diálogo foi substituído pelo apaziguamento temporário e a compreensão mútua foi soterrada por ressentimentos emaranhados. Para entender por que os casais entram em crise, é preciso olhar para além da superfície das discussões e observar a complexa engrenagem de comportamentos e crenças que sustenta a vida a dois.
Ninguém entra em um relacionamento como uma “folha em branco“, mesmo em um primeiro casamento. Em casamentos subsequentes (recasamentos), a carga é ainda mais pesada. Embora o desejo seja construir algo novo, cada um do casal carrega uma bagagem invisível, mas pesada, repleta de experiências passadas. Essas experiências funcionam como lentes através das quais o mundo e o outro são enxergados. E avaliados.
– Sua história de vida e de relacionamentos anteriores;
– O modelo de família em que cresceu;
– Crenças e expectativas sobre o que é “amar”, “cuidar”, “respeitar”;
– Formas aprendidas (próprias) de lidar com frustração, raiva, tristeza, ciúme. Cada um tem um jeito de se resolver. Porém, em um casamento, eles não são mais um. São um casal. E é complexo conjugar.
Essas experiências formam padrões de pensamento e comportamento que se repetem no relacionamento:
As pessoas possuem um repertório completo que inclui o modelo de família em que a pessoa cresceu, onde ela observou como conflitos eram geridos: se pelo grito, pelo silêncio punitivo ou pelo diálogo afetuoso. Inclui também as crenças profundas sobre o que significa ser amado. Se, na história de vida de um dos dois do casal, o cuidado estava atrelado ao controle, ele poderá interpretar tentativas de liberdade do outro como afastamento ou abandono. Da mesma forma, as formas de lidar com a frustração e a raiva são aprendidas precocemente, de forma imperceptível, mas estruturantes.
O grande desafio do casamento é que, embora o casal se torne uma unidade social, ele continua sendo composto por duas pessoas diferentes com “manuais de instrução internos” diferentes, tentando operar uma única máquina. Os dois tentando fazer o seu melhor, mas pelo seu próprio ponto de vista.
É como dar presentes. Há os que acreditam que devem dar algo que elas próprias gostariam de ganhar. Há os que acreditam que se deva dar algo que quem vai receber gostaria. É importante não se deixar levar por interpretações automáticas. Ou seja, as duas pessoas têm noções diferentes do ato de dar um presente, desenvolvidas ao longo das próprias experiências. No entanto, nos dois casos, quem vai presentear acredita estar dando o seu melhor.
A Armadilha das Interpretações Automáticas Favorece as Crises em Casamentos
Situações disparam comportamentos (gatilhos/estímulos), ocorrem discussões, silêncio, ameaças de separação.
As consequências mantêm esses comportamentos: o outro cede, se afasta, chora, pede desculpas e o ciclo recomeça até o próximo disparo.
Dentro do relacionamento do casal, a realidade raramente é o que acontece, mas sim o que cada um interpreta do que aconteceu, de acordo com seu manual, de como as coisas devem ser. O comportamento de um funciona como um gatilho para os pensamentos/avaliação do outro. Quando um dos membros do casal não responde a uma mensagem ou chega tarde, o outro não reage ao fato em si, mas ao significado que atribui a ele.
Surgem as interpretações automáticas: “Ele não me prioriza“, “Ela está tentando me controlar“, “Eu não sou o suficiente“. Esses pensamentos não são necessariamente verdadeiros, mas são sentidos como verdades absolutas. Uma vez que essa interpretação se instala, o comportamento seguinte será defensivo. Se eu acredito que estou sendo atacado, eu contra-ataco ou me escondo. O problema é que o contra-ataque de uma das partes confirma a crença de perseguição da outra, criando um ciclo onde a intenção original de carinho se perde em uma guerra de histórias imaginadas.
– interpretações automáticas (por exemplo, “se ele não respondeu logo, é porque não se importa”);
– Estratégias de defesa: (atacar, se calar, ironizar, evitar);
– Formas específicas de pedir atenção, afeto, ajuda (às vezes por meio de crítica, cobrança ou afastamento).
Quando o casal não percebe esses padrões, tende a ficar preso em ciclos de brigas, afastamento e mágoa, reconciliações apaixonadas, que se repetem, mesmo com amor presente. Até o momento em que o desgaste supera em muito o prazer.
Em qualquer relacionamento deve haver um desequilíbrio na balança entre satisfação e desagrado. O prato da satisfação deve ser pesado o suficiente para que os desagrados sejam suportados, mas quando o prato do desagrado é o mais pesado, a razão para continuar o relacionamento deixa de existir, o custo fica muito alto.

Crises em Casamentos e Repetição de Padrões
Um dos pontos mais críticos em uma crise é a repetição de padrões. Muitas vezes, o casal percebe que está brigando pela mesma coisa, do mesmo jeito, há anos. Isso ocorre porque os comportamentos de um “alimentam” os comportamentos do outro. É o que podemos chamar de ciclo de manutenção.
Imagine um casal em que um cobra atenção e o outro se retira para evitar o conflito. Quanto mais o primeiro cobra (por meio de críticas ou ironia), mais o segundo se afasta (silêncio ou saída física). O afastamento do segundo gera mais ansiedade no primeiro, que aumenta o tom da cobrança. Nesse cenário cíclico, ambos estão tentando, de forma desajeitada, resolver um desconforto.
As consequências imediatas mantêm o ciclo: quem se cala/sai obtém um alívio temporário da pressão, enquanto quem cobra sente que, ao menos, “foi ouvido” pelo impacto do grito (desabafo/catarse), e “alívio imediato“. O preço, porém, é o desgaste crônico da relação.
É preciso quebrar o ciclo de brigas, afastamento e mágoa, reconciliações para viver um casamento onde o prato do valor seja bem mais pesado que o prato do custo. Se você percebe que estão presos neste ciclo negativo, procure ajuda.